Nuno Brás coloca a inovação no centro da Estratégia 2030 da LEO Pharma

A LEO Pharma Portugal tem vindo a crescer significativamente, mas um balanço que consiste na antecipação da próxima década prevê novas respostas às necessidades médicas não atendidas e um compromisso sustentável. Em entrevista ao Jornal Médico, Nuno Brás afirma ainda que “prevemos poder mudar a vida de milhões de doentes que vivem com dermatite atópica moderada a grave, com uma nova opção terapêutica”.

 

Jornal Médico (JM) | Está há mais de uma década em cargos de liderança na LEO Pharma, quais são os elementos diferenciadores da estratégia da companhia, que colhem hoje frutos patente no crescimento da empresa? 

Nuno Brás (NB) | O elemento diferenciador da LEO Pharma é o facto de ser o único laboratório com uma ampla experiência em Dermatologia médica que cobre todo o espectro de gravidade das doenças de pele de elevada prevalência, como a dermatite atópica e a psoríase, nas suas formas ligeira, moderada e grave. O nosso objetivo é dar resposta às necessidades médicas não cobertas em Dermatologia, incluindo as doenças raras. A dimensão 360º da LEO Pharma permite à companhia disponibilizar medicamentos, aplicações e outro tipo de inovações para colmatar necessidades médicas ainda não atendidas e melhorar a qualidade de vida dos doentes. 

 

JM | E já a antecipar a próxima década, no que consiste a criação da Estratégia 2030?

NB | A Estratégia 2030 levada a cabo pela LEO Pharma, baseada na inovação e no crescimento, vai permitir à companhia tornar-se líder global em Dermatologia médica e uma das cinco mais relevantes da próxima década. Até 2030, a companhia prevê continuar a avançar no portfolio e lançar, a cada dois ou três anos, um novo tratamento ou uma nova indicação para colmatar necessidades médicas ainda não cobertas, em todo o espetro de gravidade da Dermatologia médica. A Estratégia 2030 contempla um crescimento sustentável e o compromisso de diminuir o impacto da nossa atividade no meio ambiente, estabelecendo um objetivo climático em consonância com o Acordo de Paris.

 

JM | A par da Oncologia, a Dermatologia é considerada das áreas da medicina com maior desenvolvimento. O que explica este boost? E que comentário faz ao investimento de novas moléculas para doenças da pele autoimunes e do foro da alergologia?

NB | As doenças da pele podem ser muito graves e crónicas e debilitantes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), são a terceira causa mais frequente de doença e uma das dez primeiras causas de incapacidade em todo o mundo. A Dermatologia médica é, por isso, uma das áreas terapêuticas mais atrativas e que mais cresce em todo o mundo. Até 2030, prevê-se que este mercado duplique e atinja valores de mais de 50 mil milhões de euros. As doenças autoimunes são responsáveis por diversas comorbilidades associadas, entre elas, doenças do foro da alergologia, como rinite alérgica, asma ou alergias alimentares, que têm elevado impacto na qualidade de vida dos doentes. Uma vez que as patologias autoimunes não têm cura, o desafio é investir no desenvolvimento de soluções que permitam alargar o leque terapêutico, possibilitando um tratamento mais atempado, seguro e eficaz, que responda às necessidades diárias dos doentes e lhes permita manter a qualidade de vida. 

 

JM |De que forma cumpre a LEO Pharma o “compromisso com a investigação e o desenvolvimento de novos tratamentos para doenças da pele”?

NB | A LEO Pharma tem como missão colocar-se na pele dos doentes, mantendo um forte compromisso com a investigação e o desenvolvimento de novos fármacos. Atualmente, 23% da faturação da LEO Pharma a nível global é destinada ao investimento em I&D de novas terapêuticas que melhoram a qualidade de vida dos doentes com doenças dermatológicas. O objetivo da LEO Pharma é lançar um novo medicamento a cada dois ou três anos e ser líder mundial em Dermatologia médica. Para isso, o nosso pipeline está orientado para moléculas que prometem ser first in class ou best in class

 

JM | A companhia prevê disponibilizar em breve, em Portugal, o tratamento biológico inovador para doentes adultos com dermatite atópica moderada a grave. O que nos pode adiantar sobre a data de lançamento e sobre os benefícios desta nova molécula?

NB | O lançamento que temos previsto para breve, é o segundo produto biológico do nosso portfolio, indicado para adultos com dermatite atópica moderada a grave, candidatos a terapêutica sistémica. Neste momento, estamos a trabalhar em estreita colaboração com as Autoridades de Saúde para o colocarmos à disposição dos doentes portugueses que vivem com dermatite atópica. Tralocinumab, já aprovado pelas autoridades de saúde europeias, é o primeiro e único medicamento biológico desenvolvido especificamente para inibir a citocina IL-13, que desempenha um papel fundamental subjacente aos sinais e sintomas da dermatite atópica. Esta nova opção, necessária para o tratamento desta doença inflamatória crónica da pele, demonstrou segurança e eficácia, assim como redução dos sinais e sintomas da doença ao longo do tempo. 

 

JM | Dentro da vossa oferta de Dermatologia, quais são os fármacos mais prescritos?
A nossa longa experiência e dedicação à Dermatologia médica e o portfolio especializado em Dermatologia de prescrição de que dispomos faz com que todos os produtos da LEO Pharma sejam uma referência para os dermatologistas. 

NB | Que comentário faz à política de comparticipação para este tipo de medicamentos?
A regulamentação é essencial e inerente a todo o processo de acesso ao mercado, mas deve envolver o doente o mais possível e ter em conta as suas necessidades. O acesso à inovação por parte do doente é essencial e é importante que aconteça em tempo útil, num quadro de sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. 

 

JM | Quais as principais necessidades clínicas não atendidas, que é preciso colmatar, considerando todo o espetro de gravidade da Dermatologia médica?

NB | As doenças inflamatórias crónicas da pele, apesar da sua manifestação cutânea, são doenças sistémicas, com um impacto elevado em vários aspetos da vida do doente, afetando de forma significativa a sua qualidade de vida. A LEO Pharma é atualmente a única empresa farmacêutica que cobre todo o espectro de gravidade da psoríase, com tratamentos que vão dos tópicos até biológicos e que permitem proporcionar a estes doentes dias livres de doença. Até 2030, a companhia prevê lançar, a cada dois ou três anos, um novo tratamento ou uma nova indicação para colmatar outras necessidades médicas ainda não cobertas em Dermatologia médica. A curto prazo, fruto da nossa atividade de investigação, prevemos poder mudar a vida de milhões de doentes que vivem com dermatite atópica moderada a grave, com uma nova opção terapêutica. 

 

JM | Como foram recebidos os produtos tópicos a biológico, desenvolvidos pela LEO Pharma, pelos clínicos?

NB | As soluções da LEO Pharma são, há muito, uma referência para os dermatologistas e para os doentes que delas beneficiam. Graças à dedicação e compromisso que sempre demonstrámos, somos um parceiro de confiança dos dermatologistas

 

JM | Como se pode qualificar a LEO Pharma Portugal no universo internacional da companhia?

NB | A LEO Pharma Ibéria, da qual Portugal é parte integrante, é hoje, orgulhosamente, um dos mercados prioritários da companhia na Europa. Em 2022, a LEO Pharma assinala 25 anos de atividade em Portugal. Ao longo destes anos, a LEO Pharma manteve sempre um compromisso com a investigação e o desenvolvimento de novos tratamentos para doenças da pele em Portugal e lançou diversos produtos relevantes, desde tópicos a biológicos, como o calcipotriol/ dipropionato de betametasona, uma espuma em spray tópico para o tratamento de psoríase vulgar, assim como o primeiro medicamento biológico para o tratamento da psoríase. 

Em 2021, as vendas da LEO Pharma Portugal aumentaram 4% em relação ao ano anterior, correspondente a 22, 8 milhões de euros, um crescimento muito significativo para o nosso mercado. Este incremento reforça a relevância da nossa Estratégia 2030, o compromisso com os doentes, com os dermatologistas e com a sociedade, e o esforço empresarial que temos levado a cabo desde que demos início a atividade em Portugal, com um crescimento sustentado que nos tem permitido posicionarmo-nos como uma empresa de referência no âmbito da Dermatologia médica.

 

JM | Que cunho pessoal procura deixar na marca da companhia?

NB | Enquanto Diretor Geral da LEO Pharma Ibéria, procuro consolidar a história de sucesso da companhia em Portugal e Espanha, através da nossa Estratégia 2030, e desenvolver ao máximo as competências a nível local para alcançar as metas propostas. Para isso, é essencial manter equipas dedicadas e motivadas, introduzir mais inovação, e promover uma maior proximidade com o doente, com os médicos e com as sociedades científicas. 

 

Leonor Girão reforça a ideia de que produtos cosméticos do mercado paralelo são um risco para a saúde da pele

Os filtros solares, bem como outros produtos dermatológicos, devem ser comprados em farmácia, de forma a diminuir o risco de reações adversas, como lesões ou alergias da pele. Em entrevista ao Jornal Médico, a dermatologista Leonor Girão realça a importância de usar produtos somente com certificação CEE e supervisionados pelo Infarmed português”.

Jornal Médico (JM) | Considera que a indústria dos cosméticos pode ser inimiga das boas práticas dermatológicas?

Leonor Girão (LG) | Não, porque a indústria dos cosméticos, tal como nós consideramos, é regulada através de entidades oficiais (Infarmed) e tem de obedecer a uma quantidade de regras europeias. Portanto, a Indústria dos Cosméticos séria, aquela com que trabalhamos no dia a dia e cujos produtos estão nas farmácias, é dotada de bons profissionais, de boas técnicas de fabrico e seguem as regras europeias da produção de cosméticos. Nesse sentido, não acho que sejam inimigos das boas praticas cosméticas.

JM | Quando fala de uma “zona da cosmética séria” a que tipo de produtos se refere? Como se faz a diferenciação do que é sério ou não na cosmética?

LG | Os cosméticos têm uma regulamentação própria à qual têm de obedecer. Essa regulamentação diz que substâncias podem ser utilizadas e as quantidades em que têm de ser utilizadas. Igualmente a rotulagem tem que incluir a lista dos ingredientes e informação relevante para o consumidor. Isso é regulado.

Para comercializar um produto, este tem de obedecer às regras europeias da fabricação dos cosméticos. Isso é transversal a todos os produtos que estão no mercado e são vendidos ao consumidor, sejam industriais, sejam artesanais. 

Todos os produtos que são vendidos em farmácia, obrigatoriamente, têm de seguir estas regras. Os produtos têm um código numérico CNP para venda em farmácia. Às vezes, o que acontece é que as pessoas vão comprar produtos fora da farmácia, em feiras, ou importados diretamente pela internet e cuja venda não está autorizada em em Portugal. Isso é crime, é uma ilegalidade. Nos cosméticos é a mesma coisa. Os produtos têm todos que obedecer a essas regras. Mesmo um produto de fabrico artesanal tem de obedecer a estas regras; não pode incluir ingredientes não autorizados pelas regras europeias. 

Cabe ao estado fiscalizar, ao Infarmed e às entidades responsáveis pela fiscalização em feiras e locais de venda ao público. As pessoas que compram clandestinamente, em sites duvidosos arriscam-se a comprar cosméticos com ingredientes perigosos e a ter reações tóxicas, desde alergias a outros problemas graves.

JM | Quais os principais efeitos e consequências do uso inadequado da hidroquinona?

LG | A hidroquinona é uma substância que não é permitida na venda livre de cosméticos.  Está regulamentada como medicamento. Os cremes que estão comercializados no mercado são regulados pelo Infarmed e tem uma concentração máxima de 4% de hidroquinona e, normalmente, são vendidos através de receita médica. Produtos com hidroquinona fora da farmácia estão de uma forma ou outra, ilegais. 

O uso incorreto pode causar diversos problemas. Há pessoas que em vez de utilizar para tirar uma mancha na face usam de forma indiscriminada para clarear o corpo todo. O uso abundante e prolongado desta substância poderá torna-la tóxica para o organismo, da mesma maneira que pode induzir um efeito paradoxal, e em vez de estar a despigmentar, incentiva o aparecimento de manchas. Por outro lado, pode fazer despigmentação definitiva em confetti, ou seja, um tipo de despigmentação que resulta em pequenos círculos despigmentados, brancos, na pele, definitivos.

Em Portugal este produto está regulado e é vendido em farmácias em concentrações standard. As concentrações mais altas têm de ser prescritas pelo médico na forma de manipulados (formas magistrais) unicamente em situações especiais.

JM | Em relação às opções artesanais ou chamadas naturais, que agora são muito comuns, acredita que isto pode induzir em erro os utentes? E como se pode evitar a compra de um produto que dermatologicamente até pode ser prejudicial?

LG | É necessário explicar aos consumidores que um creme, para poder estar meses numa prateleira da farmácia ou na nossa casa, tem mesmo de ter conservantes, caso contrário, o produto rança, estraga-se. Tem de ter condições para que não crie bactérias ou fungos, para que o produto não apodreça, ou ganhe bolores. Os ingredientes conservantes, bem como os preservativos, são substâncias que estão perfeitamente definidas. O nível de concentração também é regulado para os produtos não provocarem alergias nas pessoas. Isso está tudo estudado e é regulamentado. Não se pode incluir num cosmético o que se quiser só porque é “natural”. Há muitas plantas tóxicas e venenosas, “naturais”, e há casos de morte por ingestão de chá de plantas perigosas, por exemplo.

Seguramente, ao fazer um cosmético sem ter conhecimentos científicos de química e formulação e sem saber quais os  ingredientes certos, suas possíveis concentrações para cosméticos e sem incluir conservantes e preservativos, é um risco.

JM | A ausência de doenças de pele não impede a consulta com o dermatologista. Como estão os profissionais de saúde, atualmente, a agir na área da prevenção na consulta de dermatologia?

LG | Nós fazemos um trabalho enorme em termos de prevenção, por exemplo, em relação ao cancro da pele. No dia europeu do Euromelanoma, existiu uma campanha feita a nível internacional. É organizada, há vários anos, pelas diferentes sociedades de dermatologia europeia, onde se inclui a Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia. Antes da pandemia, fazia-se o rastreio presencial e gratuito.

Para mais, quando as pessoas vão a uma consulta de dermatologia são informadas das proteções básicas, falando-se sempre sobre os produtos hidratantes, produtos de higiene e filtros solares, que têm de utilizar. 

JM | A chegada do verão é muitas vezes sinónimo de publicidade a protetores solares, cremes, entre outros produtos que o consumidor tende a comprar. Qual o critério que os utentes devem ter em consideração quando na compra destes produtos?

LG | Fazer um bom filtro solar não é fácil. Para além das coisas que acabei de referir ao cosmético normal, tem de ser um produto que resiste a grandes temperaturas porque está exposto ao sol. É aplicado ao nível da pele, ao sol e, portanto, tem de resistir e manter a sua capacidade protetora ao sol, sem se degradar, isto é, tem de ser capaz de manter a sua estabilidade química, conservando as propriedades de absorção / reflexão da radiação solar . 

O importante é que o filtro solar contenha ingredientes (filtros químicos e/ou físicos) com capacidade de absorver ou refletir a radiação solar de forma a impedir que ela lese o núcleo das células, protegendo da radiação ultravioleta B, A e infravermelhos. A maior parte dos filtros das grandes marcas dermatológicas, cumprem estas condições. Depois, dentro dos filtros, têm que escolher um filtro que tenha pelo menos 30 de fator de proteção solar (FPS). As pessoas devem comprar os filtros na farmácia com índice de proteção 30 e a maior embalagem que conseguirem com esse fator – se forem para a praia vão precisar de uma boa quantidade de filtro solar e aplicá-lo várias vezes. Há filtros que têm várias características adicionais. Uns que são resistentes à água, bons para quem faz desportos náuticos, produtos que são mais desenhados para pessoas com alergias e que os constituintes tendem a ter os filtros minerais, filtros que têm menos produtos químicos e menos probabilidade de provocar alergias, e há outros filtros que possuem base menos oleosa indicados para pessoas que sofrem de acne ou têm tendência a ter pele oleosa.Um bom filtro solar é certo que se compra essencialmente na farmácia.

JM | Que iniciativas a SPDV tem neste momento a decorrer que possam ajudar na instrução e literacia em saúde o utente, que acaba por fazer tantas escolhas sem consultar um dermatologista?

LG | É preciso que as pessoas se dirijam aos especialistas, pois devem perceber que a pele é estudada pelos dermatologistas e uma vez por ano tentar ir a um dermatologista. O site da SPDV tem bastante informação, sobre as várias doenças e oferece a possibilidade aos utentes de fazerem perguntas e de mandar um email.

Existem ainda outras fontes de informação como o site da Associação Portuguesa do Cancro Cutâneo, no que diz respeito ao cancro da pele e que também tem bastante informação disponível. Faz diferentes ações com folhetos que são distribuídos, atividades nas escolas e várias ações que têm sido feitas para os farmacêuticos, educadores, professores. Trabalhou-se e trabalha-se muito desta área. Todos os anos há muita informação que se faz, específica, em reuniões para educadores e para pessoas que tratam e que lidam com o grande público na área da saúde. 

JM | Existe o estigma do utente que a consulta de dermatologia, tanto como os produtos que têm de ser utilizados são muito caros, e, por isso, os utentes optam por produtos de supermercado que muitas vezes não são os mais adequados. Esta é uma realidade que está a mudar? Já existe maior facilidade de acesso aos produtos?

LG | Na maior parte dos medicamentos, não digo todos, há alguns cujos preços são bastante acessíveis e têm-se feito o esforço das entidades de saúde em colaborar e contribuir para que os preços dos medicamentos sejam mais baixos. Sobretudo os medicamentos mais antigos, que têm preços bastantes acessíveis, para aquilo que é o medicamento, que é um produto que obriga a regras de fabrico muito estritas, e com necessidades muito especificas quer de cadeias de frio, quer de armazenamento, que encarecem como é natural, o seu fabrico. 

Em termos dos dermocosméticos, é verdade, não são comparticipados, e isso é um problema. Alguns deles acabam por ser pesados para o orçamento familiar de ordenados médios / baixos. Fazemos pressão na indústria, como por exemplo, dos filtros solares, para produzirem embalagens maiores e com preços mais acessíveis. Mas a realidade é que não são comparticipados e deveriam ter um custo bastante inferior. 

Até hoje já assistimos a algumas mudanças, como o aumento das embalagens, que podem ir até aos 400 ml, algo que há 10 anos atrás não existia. É bom para o consumidor já existirem embalagens maiores. 

Também é verdade que alguns dos produtos ainda têm preços que são, pessoalmente, excessivos para o português médio. Como profissional apelo ainda à roupa protetora. Há camisolas de lycra especia, que se vendem nas grandes cadeias desportivas, que absorvem a radiação ultravioleta e que protegem as crianças e os adultos. Não é só com o filtro solar que se protege a pele. Existem outras formas de proteção que são duradouras e económicas. 

Não deixo de fazer a ressalva do preço, que é verdade, mas pior do que pagar mais por um produto é comprar um produto que não protege, dá uma falsa sensação de segurança e é prejudicial à saúde.

SPDV realiza em julho a reunião da Primavera

Agendada para 8 e 9 de julho, a reunião da Primavera, organizada pela Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV), realiza-se no Sheraton Hotel, em Lisboa. 

A comissão organizadora é composta por Alberto Mota, Alexandre João, António Massa, Cândida Fernandes, Olga Pereira, Paulo Lamarão e Rui Tavares Bello. Na comissão científica encontramos ainda João Maia e Silva e Ricardo Vieira.

“No programa científico, que esperamos que vá ao encontro das vossas expectativas, contamos com uma presença activa de toda a SPDV, de todos os dermatologistas”, começa por dizer António Massa, numa mensagem de boas-vindas.

Por sua vez, na vertente social, o anfitrião acrescenta que vai existir “oportunidade de confraternização no 25º piso do Hotel, com uma bonita vista para a cidade de Lisboa, na noite de sexta-feira”.

“Contamos convosco e desejamos poder trocar impressões, partilhando experiências e emoções dos tempos difíceis que correm, com vantagens para a Dermatologia, para os nossos doentes e para todos nós”, conclui António Massa.

As inscrições podem ser feitas no decorrer da reunião. O programa pode ser consultado aqui.

Começou a 2ª temporada de “Cancro sem Temor” e o primeiro episódio foca-se no melanoma

O IPO do Porto arranca com a segunda temporada do projeto “Cancro sem Temor” cumprindo o objetivo de alertar para a importância de aprender a viver com o diagnóstico de cancro e desmistificar conceitos e ideias sobre esta vivência. Em Portugal, registou-se um aumento de 6% ao ano do número de novos casos.

“A pele, o maior órgão do corpo humano, tem uma função que vai muito além de cobrir e proteger o corpo e alimentar a vaidade. Infelizmente, nem sempre é convenientemente protegida, o que implica por vezes sérias consequências”, lê-se em comunicado.

A iniciativa conta com a participação de Matilde Ribeiro, Orientadora da Clínica da Pele, Tecidos Moles e Osso e Especialista em Cirurgia Plástica e Reconstrutiva e de Paula Ferreira, Coordenadora da Patologia de Pele no Serviço de Oncologia Médica e Médica Oncologista; conta, simultaneamente, com a presença de um doente, Jorge Assunção, com 60 anos, que entrou no IPO do Porto em 2010, tendo neste momento a doença em completa remissão.  

Ao longo desta conversa dão também o seu testemunho, António Santos, Diretor do Serviço de Dermatologia do IPO do Porto, Emília Magalhães, enfermeira responsável pela Clínica da Pele, Tecidos Moles e Osso e Maria João Monteiro, doente com melanoma.

Serão abordados temas como o papel do doente na prevenção do melanoma, sinais que é necessário estar atento, alterações que representam maior preocupação e os cuidados a ter com o sol e os fatores de risco. 

“Entre os temas em destaque estão ainda a evolução das opções terapêuticas e de tratamento, e a importância da multidisciplinaridade da equipa que acompanha”, acrescentam em nota de imprensa.

Matilde Ribeiro afirma que é preciso “contribuir para a mudança de mentalidades e comportamentos”, pois “há determinados tipos de cancro da pele que têm um potencial de metastização grande, e quando diagnosticados em fases avançadas, apresentam um prognóstico muito negativo para o doente”. O episódio encontra-se disponível aqui.

Paulo Lamarão: “Os cuidados dermatológicos não devem ser sazonais”

Paulo Lamarão, diretor de Dermatologia do hospital Beatriz Ângelo, membro da direção da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV) e membro do board da Academia Europeia de Dermatologia e Venereologia, recorda a importância de reforçar os diagnósticos dos cancros cutâneos. Em entrevista ao Jornal Médico afirma que, além do melanoma, existem “tumores mais raros como os sarcomas, os linfomas e outras neoplasias malignas mais raras, que também podem ter agressividade clínica”. Nesse sentido, apela à examinação da pele “uma vez a cada 2 ou 3 meses”.

Jornal Médico (JM) | No comunicado enviado pelo SPDV, afirma-se que “em Portugal surgem anualmente cerca de 700 novos casos de melanoma maligno, estimando-se que em 2019 tenham morrido 260 pessoas devido a esta doença”. Em causa estará a falta de informação e a falta de métodos de prevenção ou o atraso no diagnóstico? 

Paulo Lamarão (PL) | Nas últimas décadas, a Dermatologia nacional, através da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo (APCC) e da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV) tem liderado campanhas de informação dirigidas ao público com a ajuda imprescindível dos órgãos de comunicação social. Têm sido feitas campanhas nas escolas, nas empresas até nas praias no sentido da prevenção primária e secundária do cancro cutâneo. Acontece que a sua incidência tem vindo a aumentar, em Portugal e em grande número de países, provavelmente consequência dos nossos hábitos modernos de procurar a exposição solar no lazer, no desporto, etc. É moda estar bronzeado, é moda fazer férias em locais paradisíacos em praias tropicais. Por outro lado, não pensamos que haja falta de informação, mas sim hábitos enraizados difíceis de contrariar. Hoje em dia, diagnosticamos mais cancros cutâneos e muitos em fase mais precoce e curável. Mas continuam a aparecer alguns cancros cutâneos avançados.  O atraso no diagnóstico é algo que preocupa os dermatologistas se considerarmos que pode haver dificuldade no acesso a consultas de dermatologia em algumas franjas da população.  Para obviar este problema, chamamos a atenção para a facilidade e para o interesse em juntar fotografias à informação clínica para referenciação hospitalar destas situações, quando falamos do serviço nacional de saúde.

JM | O rastreio dos sinais é um ponto muitas vezes focado pela SPDV na prevenção do melanoma. No entanto, a observação pelo próprio tem os seus constrangimentos e somos muitas vezes desconhecedores do nosso próprio mapa de sinais. Como se contorna esta situação? 

PL | O auto-exame da nossa pele é muito importante e não é assim tão difícil de fazer. Requer motivação e método. Aos doentes que me dizem que não o fazem porque não conseguem, por exemplo, ver as costas ou outras zonas mais recônditas, pergunto se não têm um espelho em casa. É necessário um espelho maior e um outro portátil, luz e um pouco de tempo para cuidarmos da nossa saúde. Chamamos a atenção que não devem examinar a pele todos os dias. É preferível fazê-lo uma vez a cada 2 ou 3 meses. Depois, devemos ter em atenção se há alterações de lesões pré-existentes ou se surgiu alguma lesão nova. Mas dar importância a uma lesão nova que seja diferente do que é habitual na nossa pele – um “patinho feio”. É claro que, hoje em dia, também existem aplicações de telemóvel que podem facilitar a vigilância pelo próprio. Quando se trata, por exemplo, da vigilância de nevos melanocíticos atípicos, muitos dermatologistas dispõem de sistemas de dermatoscopia digital que facilitam muito a vigilância destes pacientes.

JM | As campanhas de prevenção são também sazonais, como pode a comunidade de dermatologia preparar serviços de rastreio ao longo de todo o ano? 

Notamos também alguma sazonalidade na procura de cuidados dermatológicos que aumentam nos meses quentes. As campanhas fazem todo o sentido na altura em que são feitas. Mas muitos dermatologistas têm, por método, o hábito de propor uma observação geral mesmo que o paciente tenha ido à consulta por um problema do seu cabelo, explicando a razão. Assim, fazemos muitos rastreios ao longo do ano e isso é bem aceite pelos nossos doentes. Outras vezes, são os nossos doentes que o solicitam logo de início.

JM | A proteção solar tem dois fortes pontos de distribuição, as farmácias comunitárias e o grande retalho. Que comentário faz relativamente à literacia dos portugueses na hora de escolher a proteção solar mais adequada?  

PL | Os jovens muitas vezes preferem índices de proteção baixos ou não aplicar de todo o protetor para se poderem bronzear de forma mais intensa e rápida. Muitas pessoas aplicam também pouca quantidade e em formulações como os sprays que se espalham demasiado bem mas, por isso, a fina camada que fica sobre a pele confere menor proteção. Outra questão é o tamanho e o preço das embalagens. Há muitos anos defendemos que haja uma consciencialização das empresas produtoras para que façam embalagens de grande capacidade (p. ex 500ml) e por isso mais baratas. Porque os protetores funcionam se formos generosos na sua aplicação. E muitas pessoas compram uma embalagem de 200 ml que, por vezes, nem se esgota até final do Verão. 

JM | Para além do melanoma, que outros tumores da pele preocupam a SPDV?  

PL | Os basaliomas e os carcinomas espinocelulares até são mais frequentes que o melanoma. Os basaliomas são o tumor maligno mais frequente da espécie humana, mas raramente metastizam e por isso são causa rara de morte. Mas podem ser agressivos e desfigurantes. O espinocelular, o segundo mais frequente, já metastiza com maior facilidade e por isso preocupa-nos se o diagnóstico é mais tardio. E existem outros tumores mais raros como os sarcomas, os linfomas e outras neoplasias malignas mais raras, que também podem ter agressividade clínica.

JM | O branqueamento da pele e o tratamento para as manchas de pele são intervenções muito publicitadas na área da cosmética. Sobre este tema, quais são as preocupações da SPDV? 

Que os produtos ou os métodos sejam utilizados sem a supervisão de um dermatologista e sem acompanhamento médico, correndo-se, por isso, riscos de ações adversas. E que sejam utilizados cosméticos não autorizados na Europa e por isso com ingredientes indevidos, com risco de toxicidade.

JM | Quais as consequências da má utilização dos produtos/ serviços acima referidos? Como podem os especialistas em dermatologia defender as pessoas de má prática nesta área? 

PL | O branqueamento da pele, sem supervisão médica e utilizando cosméticos ilegais na Europa, é obtido usando agentes que bloqueiam a produção de melanina e geralmente contêm substâncias como hidroquinona, corticoides tópicos potentes ou mercúrio. Estas substâncias podem causar complicações locais e sistémicas. Os dermatologistas devem identificar as pessoas em risco de usar agentes branqueadores da pele de forma a prevenir complicações, aconselhar sobre as variações fisiológicas da pigmentação e como evitar a autoaplicação de branqueadores para tratar condições dermatológicas.

JM | O que pode adiantar relativamente à relação da exposição solar e o fator hormonal desencadeador de problemas de pele? 

PL | De facto, algumas mulheres podem desenvolver com maior facilidade manchas hiperpigmentadas (melasma) em áreas expostas. Para que isso aconteça, podem conjugar-se vários fatores como o fototipo da sua pele, a exposição solar e estrogénios endógenos ou exógenos. Normalmente a situação é multifatorial e deve ser avaliada e aconselhada por um dermatologista

JM | Numa nota positiva, que doenças de pele podem beneficiar de uma exposição saudável e moderada aos raios solares? 

PL | Claro que a exposição solar moderada e regrada tem vantagens e é imprescindível à nossa vida. Precisamos do sol para ativar a vitamina D (habitualmente são suficientes 15 minutos de exposição no rosto, nos braços ou nas pernas a meio da manhã) e um dia sem sol deixa-nos mais deprimidos. Várias doenças cutâneas podem beneficiar de exposição solar moderada que se torna terapêutica.  Dou alguns exemplos como a psoríase, o eczema atópico, a pitiríase rosada, mas deverá ser sempre o dermatologista a aconselhar o seu doente da forma como deve aproveitar ou evitar a exposição solar. 

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