Entrevistas

Leonor Girão reforça a ideia de que produtos cosméticos do mercado paralelo são um risco para a saúde da pele

Os filtros solares, bem como outros produtos dermatológicos, devem ser comprados em farmácia, de forma a diminuir o risco de reações adversas, como lesões ou alergias da pele. Em entrevista ao Jornal Médico, a dermatologista Leonor Girão realça a importância de usar produtos somente com certificação CEE e supervisionados pelo Infarmed português”.

Jornal Médico (JM) | Considera que a indústria dos cosméticos pode ser inimiga das boas práticas dermatológicas?

Leonor Girão (LG) | Não, porque a indústria dos cosméticos, tal como nós consideramos, é regulada através de entidades oficiais (Infarmed) e tem de obedecer a uma quantidade de regras europeias. Portanto, a Indústria dos Cosméticos séria, aquela com que trabalhamos no dia a dia e cujos produtos estão nas farmácias, é dotada de bons profissionais, de boas técnicas de fabrico e seguem as regras europeias da produção de cosméticos. Nesse sentido, não acho que sejam inimigos das boas praticas cosméticas.

JM | Quando fala de uma “zona da cosmética séria” a que tipo de produtos se refere? Como se faz a diferenciação do que é sério ou não na cosmética?

LG | Os cosméticos têm uma regulamentação própria à qual têm de obedecer. Essa regulamentação diz que substâncias podem ser utilizadas e as quantidades em que têm de ser utilizadas. Igualmente a rotulagem tem que incluir a lista dos ingredientes e informação relevante para o consumidor. Isso é regulado.

Para comercializar um produto, este tem de obedecer às regras europeias da fabricação dos cosméticos. Isso é transversal a todos os produtos que estão no mercado e são vendidos ao consumidor, sejam industriais, sejam artesanais. 

Todos os produtos que são vendidos em farmácia, obrigatoriamente, têm de seguir estas regras. Os produtos têm um código numérico CNP para venda em farmácia. Às vezes, o que acontece é que as pessoas vão comprar produtos fora da farmácia, em feiras, ou importados diretamente pela internet e cuja venda não está autorizada em em Portugal. Isso é crime, é uma ilegalidade. Nos cosméticos é a mesma coisa. Os produtos têm todos que obedecer a essas regras. Mesmo um produto de fabrico artesanal tem de obedecer a estas regras; não pode incluir ingredientes não autorizados pelas regras europeias. 

Cabe ao estado fiscalizar, ao Infarmed e às entidades responsáveis pela fiscalização em feiras e locais de venda ao público. As pessoas que compram clandestinamente, em sites duvidosos arriscam-se a comprar cosméticos com ingredientes perigosos e a ter reações tóxicas, desde alergias a outros problemas graves.

JM | Quais os principais efeitos e consequências do uso inadequado da hidroquinona?

LG | A hidroquinona é uma substância que não é permitida na venda livre de cosméticos.  Está regulamentada como medicamento. Os cremes que estão comercializados no mercado são regulados pelo Infarmed e tem uma concentração máxima de 4% de hidroquinona e, normalmente, são vendidos através de receita médica. Produtos com hidroquinona fora da farmácia estão de uma forma ou outra, ilegais. 

O uso incorreto pode causar diversos problemas. Há pessoas que em vez de utilizar para tirar uma mancha na face usam de forma indiscriminada para clarear o corpo todo. O uso abundante e prolongado desta substância poderá torna-la tóxica para o organismo, da mesma maneira que pode induzir um efeito paradoxal, e em vez de estar a despigmentar, incentiva o aparecimento de manchas. Por outro lado, pode fazer despigmentação definitiva em confetti, ou seja, um tipo de despigmentação que resulta em pequenos círculos despigmentados, brancos, na pele, definitivos.

Em Portugal este produto está regulado e é vendido em farmácias em concentrações standard. As concentrações mais altas têm de ser prescritas pelo médico na forma de manipulados (formas magistrais) unicamente em situações especiais.

JM | Em relação às opções artesanais ou chamadas naturais, que agora são muito comuns, acredita que isto pode induzir em erro os utentes? E como se pode evitar a compra de um produto que dermatologicamente até pode ser prejudicial?

LG | É necessário explicar aos consumidores que um creme, para poder estar meses numa prateleira da farmácia ou na nossa casa, tem mesmo de ter conservantes, caso contrário, o produto rança, estraga-se. Tem de ter condições para que não crie bactérias ou fungos, para que o produto não apodreça, ou ganhe bolores. Os ingredientes conservantes, bem como os preservativos, são substâncias que estão perfeitamente definidas. O nível de concentração também é regulado para os produtos não provocarem alergias nas pessoas. Isso está tudo estudado e é regulamentado. Não se pode incluir num cosmético o que se quiser só porque é “natural”. Há muitas plantas tóxicas e venenosas, “naturais”, e há casos de morte por ingestão de chá de plantas perigosas, por exemplo.

Seguramente, ao fazer um cosmético sem ter conhecimentos científicos de química e formulação e sem saber quais os  ingredientes certos, suas possíveis concentrações para cosméticos e sem incluir conservantes e preservativos, é um risco.

JM | A ausência de doenças de pele não impede a consulta com o dermatologista. Como estão os profissionais de saúde, atualmente, a agir na área da prevenção na consulta de dermatologia?

LG | Nós fazemos um trabalho enorme em termos de prevenção, por exemplo, em relação ao cancro da pele. No dia europeu do Euromelanoma, existiu uma campanha feita a nível internacional. É organizada, há vários anos, pelas diferentes sociedades de dermatologia europeia, onde se inclui a Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia. Antes da pandemia, fazia-se o rastreio presencial e gratuito.

Para mais, quando as pessoas vão a uma consulta de dermatologia são informadas das proteções básicas, falando-se sempre sobre os produtos hidratantes, produtos de higiene e filtros solares, que têm de utilizar. 

JM | A chegada do verão é muitas vezes sinónimo de publicidade a protetores solares, cremes, entre outros produtos que o consumidor tende a comprar. Qual o critério que os utentes devem ter em consideração quando na compra destes produtos?

LG | Fazer um bom filtro solar não é fácil. Para além das coisas que acabei de referir ao cosmético normal, tem de ser um produto que resiste a grandes temperaturas porque está exposto ao sol. É aplicado ao nível da pele, ao sol e, portanto, tem de resistir e manter a sua capacidade protetora ao sol, sem se degradar, isto é, tem de ser capaz de manter a sua estabilidade química, conservando as propriedades de absorção / reflexão da radiação solar . 

O importante é que o filtro solar contenha ingredientes (filtros químicos e/ou físicos) com capacidade de absorver ou refletir a radiação solar de forma a impedir que ela lese o núcleo das células, protegendo da radiação ultravioleta B, A e infravermelhos. A maior parte dos filtros das grandes marcas dermatológicas, cumprem estas condições. Depois, dentro dos filtros, têm que escolher um filtro que tenha pelo menos 30 de fator de proteção solar (FPS). As pessoas devem comprar os filtros na farmácia com índice de proteção 30 e a maior embalagem que conseguirem com esse fator – se forem para a praia vão precisar de uma boa quantidade de filtro solar e aplicá-lo várias vezes. Há filtros que têm várias características adicionais. Uns que são resistentes à água, bons para quem faz desportos náuticos, produtos que são mais desenhados para pessoas com alergias e que os constituintes tendem a ter os filtros minerais, filtros que têm menos produtos químicos e menos probabilidade de provocar alergias, e há outros filtros que possuem base menos oleosa indicados para pessoas que sofrem de acne ou têm tendência a ter pele oleosa.Um bom filtro solar é certo que se compra essencialmente na farmácia.

JM | Que iniciativas a SPDV tem neste momento a decorrer que possam ajudar na instrução e literacia em saúde o utente, que acaba por fazer tantas escolhas sem consultar um dermatologista?

LG | É preciso que as pessoas se dirijam aos especialistas, pois devem perceber que a pele é estudada pelos dermatologistas e uma vez por ano tentar ir a um dermatologista. O site da SPDV tem bastante informação, sobre as várias doenças e oferece a possibilidade aos utentes de fazerem perguntas e de mandar um email.

Existem ainda outras fontes de informação como o site da Associação Portuguesa do Cancro Cutâneo, no que diz respeito ao cancro da pele e que também tem bastante informação disponível. Faz diferentes ações com folhetos que são distribuídos, atividades nas escolas e várias ações que têm sido feitas para os farmacêuticos, educadores, professores. Trabalhou-se e trabalha-se muito desta área. Todos os anos há muita informação que se faz, específica, em reuniões para educadores e para pessoas que tratam e que lidam com o grande público na área da saúde. 

JM | Existe o estigma do utente que a consulta de dermatologia, tanto como os produtos que têm de ser utilizados são muito caros, e, por isso, os utentes optam por produtos de supermercado que muitas vezes não são os mais adequados. Esta é uma realidade que está a mudar? Já existe maior facilidade de acesso aos produtos?

LG | Na maior parte dos medicamentos, não digo todos, há alguns cujos preços são bastante acessíveis e têm-se feito o esforço das entidades de saúde em colaborar e contribuir para que os preços dos medicamentos sejam mais baixos. Sobretudo os medicamentos mais antigos, que têm preços bastantes acessíveis, para aquilo que é o medicamento, que é um produto que obriga a regras de fabrico muito estritas, e com necessidades muito especificas quer de cadeias de frio, quer de armazenamento, que encarecem como é natural, o seu fabrico. 

Em termos dos dermocosméticos, é verdade, não são comparticipados, e isso é um problema. Alguns deles acabam por ser pesados para o orçamento familiar de ordenados médios / baixos. Fazemos pressão na indústria, como por exemplo, dos filtros solares, para produzirem embalagens maiores e com preços mais acessíveis. Mas a realidade é que não são comparticipados e deveriam ter um custo bastante inferior. 

Até hoje já assistimos a algumas mudanças, como o aumento das embalagens, que podem ir até aos 400 ml, algo que há 10 anos atrás não existia. É bom para o consumidor já existirem embalagens maiores. 

Também é verdade que alguns dos produtos ainda têm preços que são, pessoalmente, excessivos para o português médio. Como profissional apelo ainda à roupa protetora. Há camisolas de lycra especia, que se vendem nas grandes cadeias desportivas, que absorvem a radiação ultravioleta e que protegem as crianças e os adultos. Não é só com o filtro solar que se protege a pele. Existem outras formas de proteção que são duradouras e económicas. 

Não deixo de fazer a ressalva do preço, que é verdade, mas pior do que pagar mais por um produto é comprar um produto que não protege, dá uma falsa sensação de segurança e é prejudicial à saúde.