Entrevistas

Paulo Lamarão: “Os cuidados dermatológicos não devem ser sazonais”

Paulo Lamarão, diretor de Dermatologia do hospital Beatriz Ângelo, membro da direção da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV) e membro do board da Academia Europeia de Dermatologia e Venereologia, recorda a importância de reforçar os diagnósticos dos cancros cutâneos. Em entrevista ao Jornal Médico afirma que, além do melanoma, existem “tumores mais raros como os sarcomas, os linfomas e outras neoplasias malignas mais raras, que também podem ter agressividade clínica”. Nesse sentido, apela à examinação da pele “uma vez a cada 2 ou 3 meses”.

Jornal Médico (JM) | No comunicado enviado pelo SPDV, afirma-se que “em Portugal surgem anualmente cerca de 700 novos casos de melanoma maligno, estimando-se que em 2019 tenham morrido 260 pessoas devido a esta doença”. Em causa estará a falta de informação e a falta de métodos de prevenção ou o atraso no diagnóstico? 

Paulo Lamarão (PL) | Nas últimas décadas, a Dermatologia nacional, através da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo (APCC) e da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV) tem liderado campanhas de informação dirigidas ao público com a ajuda imprescindível dos órgãos de comunicação social. Têm sido feitas campanhas nas escolas, nas empresas até nas praias no sentido da prevenção primária e secundária do cancro cutâneo. Acontece que a sua incidência tem vindo a aumentar, em Portugal e em grande número de países, provavelmente consequência dos nossos hábitos modernos de procurar a exposição solar no lazer, no desporto, etc. É moda estar bronzeado, é moda fazer férias em locais paradisíacos em praias tropicais. Por outro lado, não pensamos que haja falta de informação, mas sim hábitos enraizados difíceis de contrariar. Hoje em dia, diagnosticamos mais cancros cutâneos e muitos em fase mais precoce e curável. Mas continuam a aparecer alguns cancros cutâneos avançados.  O atraso no diagnóstico é algo que preocupa os dermatologistas se considerarmos que pode haver dificuldade no acesso a consultas de dermatologia em algumas franjas da população.  Para obviar este problema, chamamos a atenção para a facilidade e para o interesse em juntar fotografias à informação clínica para referenciação hospitalar destas situações, quando falamos do serviço nacional de saúde.

JM | O rastreio dos sinais é um ponto muitas vezes focado pela SPDV na prevenção do melanoma. No entanto, a observação pelo próprio tem os seus constrangimentos e somos muitas vezes desconhecedores do nosso próprio mapa de sinais. Como se contorna esta situação? 

PL | O auto-exame da nossa pele é muito importante e não é assim tão difícil de fazer. Requer motivação e método. Aos doentes que me dizem que não o fazem porque não conseguem, por exemplo, ver as costas ou outras zonas mais recônditas, pergunto se não têm um espelho em casa. É necessário um espelho maior e um outro portátil, luz e um pouco de tempo para cuidarmos da nossa saúde. Chamamos a atenção que não devem examinar a pele todos os dias. É preferível fazê-lo uma vez a cada 2 ou 3 meses. Depois, devemos ter em atenção se há alterações de lesões pré-existentes ou se surgiu alguma lesão nova. Mas dar importância a uma lesão nova que seja diferente do que é habitual na nossa pele – um “patinho feio”. É claro que, hoje em dia, também existem aplicações de telemóvel que podem facilitar a vigilância pelo próprio. Quando se trata, por exemplo, da vigilância de nevos melanocíticos atípicos, muitos dermatologistas dispõem de sistemas de dermatoscopia digital que facilitam muito a vigilância destes pacientes.

JM | As campanhas de prevenção são também sazonais, como pode a comunidade de dermatologia preparar serviços de rastreio ao longo de todo o ano? 

Notamos também alguma sazonalidade na procura de cuidados dermatológicos que aumentam nos meses quentes. As campanhas fazem todo o sentido na altura em que são feitas. Mas muitos dermatologistas têm, por método, o hábito de propor uma observação geral mesmo que o paciente tenha ido à consulta por um problema do seu cabelo, explicando a razão. Assim, fazemos muitos rastreios ao longo do ano e isso é bem aceite pelos nossos doentes. Outras vezes, são os nossos doentes que o solicitam logo de início.

JM | A proteção solar tem dois fortes pontos de distribuição, as farmácias comunitárias e o grande retalho. Que comentário faz relativamente à literacia dos portugueses na hora de escolher a proteção solar mais adequada?  

PL | Os jovens muitas vezes preferem índices de proteção baixos ou não aplicar de todo o protetor para se poderem bronzear de forma mais intensa e rápida. Muitas pessoas aplicam também pouca quantidade e em formulações como os sprays que se espalham demasiado bem mas, por isso, a fina camada que fica sobre a pele confere menor proteção. Outra questão é o tamanho e o preço das embalagens. Há muitos anos defendemos que haja uma consciencialização das empresas produtoras para que façam embalagens de grande capacidade (p. ex 500ml) e por isso mais baratas. Porque os protetores funcionam se formos generosos na sua aplicação. E muitas pessoas compram uma embalagem de 200 ml que, por vezes, nem se esgota até final do Verão. 

JM | Para além do melanoma, que outros tumores da pele preocupam a SPDV?  

PL | Os basaliomas e os carcinomas espinocelulares até são mais frequentes que o melanoma. Os basaliomas são o tumor maligno mais frequente da espécie humana, mas raramente metastizam e por isso são causa rara de morte. Mas podem ser agressivos e desfigurantes. O espinocelular, o segundo mais frequente, já metastiza com maior facilidade e por isso preocupa-nos se o diagnóstico é mais tardio. E existem outros tumores mais raros como os sarcomas, os linfomas e outras neoplasias malignas mais raras, que também podem ter agressividade clínica.

JM | O branqueamento da pele e o tratamento para as manchas de pele são intervenções muito publicitadas na área da cosmética. Sobre este tema, quais são as preocupações da SPDV? 

Que os produtos ou os métodos sejam utilizados sem a supervisão de um dermatologista e sem acompanhamento médico, correndo-se, por isso, riscos de ações adversas. E que sejam utilizados cosméticos não autorizados na Europa e por isso com ingredientes indevidos, com risco de toxicidade.

JM | Quais as consequências da má utilização dos produtos/ serviços acima referidos? Como podem os especialistas em dermatologia defender as pessoas de má prática nesta área? 

PL | O branqueamento da pele, sem supervisão médica e utilizando cosméticos ilegais na Europa, é obtido usando agentes que bloqueiam a produção de melanina e geralmente contêm substâncias como hidroquinona, corticoides tópicos potentes ou mercúrio. Estas substâncias podem causar complicações locais e sistémicas. Os dermatologistas devem identificar as pessoas em risco de usar agentes branqueadores da pele de forma a prevenir complicações, aconselhar sobre as variações fisiológicas da pigmentação e como evitar a autoaplicação de branqueadores para tratar condições dermatológicas.

JM | O que pode adiantar relativamente à relação da exposição solar e o fator hormonal desencadeador de problemas de pele? 

PL | De facto, algumas mulheres podem desenvolver com maior facilidade manchas hiperpigmentadas (melasma) em áreas expostas. Para que isso aconteça, podem conjugar-se vários fatores como o fototipo da sua pele, a exposição solar e estrogénios endógenos ou exógenos. Normalmente a situação é multifatorial e deve ser avaliada e aconselhada por um dermatologista

JM | Numa nota positiva, que doenças de pele podem beneficiar de uma exposição saudável e moderada aos raios solares? 

PL | Claro que a exposição solar moderada e regrada tem vantagens e é imprescindível à nossa vida. Precisamos do sol para ativar a vitamina D (habitualmente são suficientes 15 minutos de exposição no rosto, nos braços ou nas pernas a meio da manhã) e um dia sem sol deixa-nos mais deprimidos. Várias doenças cutâneas podem beneficiar de exposição solar moderada que se torna terapêutica.  Dou alguns exemplos como a psoríase, o eczema atópico, a pitiríase rosada, mas deverá ser sempre o dermatologista a aconselhar o seu doente da forma como deve aproveitar ou evitar a exposição solar.